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História...
A história da AHPAS (pronunciamos "A Paz"!) - Associação Helena Piccardi de Andrade Silva - começou como começam tantas outras histórias de entidades assistenciais: uma perda precoce, dois pais desolados, um sentimento de missão não cumprida, a necessidade de transformar uma dor depressiva em dor solidária e transformadora... Então surgiu a idéia da AHPAS. Uma entidade assistencial com o objetivo específico de oferecer transporte confortável a crianças carentes portadoras de câncer, durante o período de tratamento... E mais: oferecer qualidade de vida em um período de extremo sofrimento para a criança e sua família.
O nome da associação é uma homenagem à Helena, que é de fato a verdadeira "fundadora" da AHPAS. Helena, filha de Luiz Maurício e Tatiana, fundadores no papel, viveu cinco lindos anos junto a sua família, mas depois, vítima de um tipo de câncer fatal, partiu deixando atrás de si a semente que ora germina. Gostaríamos que você conhecesse um pouco mais desta história, triste sim, mas profundamente bela...

ENSAIO DE HELENA POR TATIANA PICCARDI
Mamãe, de onde eu vinha quando me encontraste?" - perguntou o menino à sua mãe.
A mãe, entre rindo e chorando, estreitou o menino nos braços e respondeu:
"Tu estavas escondido em meu coração, como o seu desejo, meu amor.
Estavas com as bonecas com que eu brincava em minha infância.
E, a cada manhã, quando eu fazia com o barro a imagem do meu deus, era a ti que eu
fazia e desfazia.
Estavas no altar, com o deus da nossa casa; ao adorá-lo, era a ti que eu adorava.
Vivias em todas as minhas esperanças e em todos os meus afetos. Viveste em minha
vida e na vida de minha mãe.
Vieste pouco a pouco, um século depois do outro,
no seio do Espírito imortal que governa o nosso lar.
Quando eu era moça e o meu coração desabrochava, tu flutuavas ao meu redor
como perfume.
Tua suavidade terna floresceu primeiro em meu corpo de jovem,
como a cor da alvorada, antes do sol despontar.
Primeiro amor do céu,
irmão gêmeo da luz matutina,
tu desceste ao mundo no rio da vida e, finalmente,
vieste pousar em meu coração...
Que enlevo me arrebata quanto eu te contemplo, meu filho!
Eras tudo e te tornaste meu.
Que medo eu tenho de te perder...
É por isso que eu te estreito em meu seio.
Ah, que milagre envolveu o tesouro do mundo nestes meus tão frágeis braços?"
(R. Tagore)
Procuro nas fotos
Ela não está mais lá ...
Fixo meu olhar em seus muitos olhares
Não são mais os seus olhos que me vêem ...
Roço seu rosto e,
em vez de pele de bebê,
só papel e a vã esperança
de um tempo que não se tem ...
As fotos, posso guardá-las todas,
aqui ... ou ... acolá ...
Que amareleçam
Que virem pó
pois ela não está mais lá ...
(Tatiana Piccardi)
"E muitas vezes,
no decorrer da noite sagrada,
eu dirigia meu coração à terra grave e sofredora,
e lhe prometia amá-la até a morte, com seu pesado fardo de fatalidade,
e de não desprezar qualquer um de seus enigmas.
Assim, ligava-me a ela por meio de um vínculo mortal."
(Hölderlin)
ENSAIO DE HELENA - Parte 1
Esperava há uma hora, ou mais. Esperaria o quanto fosse. Na mesa ao lado do sofá gasto, as revistas de sempre. Caras, Manchete, Veja. A secretária lia uma dessas revistas sentada ao meu lado. Não parecia preocupada em ocupar seu lugar oficial junto à escrivaninha que lhe era reservada. Levantava-se com a revista na mão e debruçada sobre a mesa atendia o telefone, que tocava muito: ele sempre atrasa, são tantos casos ... mas posso tentar bipá-lo, não ...sabe como é, não posso encontrá-lo no hospital, são muitos casos, emergências, ele não pára em lugar nenhum. Na primeira oportunidade pedi para usar o telefone. Você acha que eu continuo esperando? Pati, venha para casa, não vale a pena, esse cara quer abraçar o mundo com as pernas e não dá conta do recado, vamos mudar de médico e pronto! Não, é melhor esperar, ouvir mais, quem sabe.
A mulher loira e elegante que entrou não tinha a mesma paciência que eu. O filho de uns doze anos estava inquieto. O exame, uma tomografia, podia ficar, eles voltariam depois. Mas, afinal, de que adianta a hora marcada? Um resmungo ao final do corredor. Sorte a dela. Eu esperaria. Era a chance de definir de vez que rumo tomar. As orações tinham sido muitas e Deus haveria de iluminar o caminho certo. O câncer evoluía, tomava conta da cabeça para além do tronco cerebral. Mas esperar a morte olhando o relógio? Esperar os dias, contar as luas, desistir de lutar ... aceitar...? Aceitar o quê?
Chegou apressado, meio amarrotado como sempre naquele jaleco de médico do Hospital das Clínicas. Os óculos suspensos pelo osso do nariz não davam conta de enxergar tudo o que poderia ser visto. Passou por mim preocupado.
Pode entrar! As revistas ficaram de lado quando o Dr. Olímpio chegou. Às seis da tarde o dia de trabalho havia realmente começado para aquela moça que eu nunca mais veria. Pode entrar. Por cima dos óculos, um olhar desanimado conduzia a caneta que riscava o papel tentando me mostrar a evolução do tumor. Não cedera à radioterapia, não cedera à medicação, aqueles lábios que pareciam não poder mais sorrir abertamente moviam-se articulando palavras de desesperança. Alisou o cabelo pintado. O Dr. Olímpio Dantas era um dos maiores especialistas em câncer em crianças do país, mas não podia mais ajudar minha filha de cinco anos. Derrotado, recomendou um quimioterápico leve, opcional, não entendi bem para quê. Filha, dizia dirigindo-se a mim que não sou sua filha, é esperar. Como esperar a morte se nos olhos azuis de minha Helena ainda se vê tanta vida? Ela se expressa, entende tudo, se relaciona, brinca à sua moda, me abraça com o bracinho que ainda se movimenta, nos ama ... a mim, ao pai, ao irmão ... quer estar conosco. O senhor não acredita em Deus? Não tem fé? Filha, sou muito religioso, mas na igreja, aqui preciso ser objetivo. Pois eu acredito em milagres. Gostaria que o senhor fosse à festa que daremos para a Helena quando ela se curar. Será a maior festa jamais vista. Filha, Deus sabe como iria gostar de estar lá.
A avenida movimentada não me incomodava. Não podia ouvir o barulho nem tampouco perceber o amontoado de luzes que abriam o caminho para casa na noite que chegava. A multa presa no pára-brisas do carro igualmente não podia me tirar de dentro da minha noite, noite sem lua. Enfiei-a no porta-luvas e lá ficou junto a outras tantas retiradas de pára-brisas de cartão vencido cansados de esperar diante do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas.
Multas impiedosas, como impiedosas eram as opiniões que médicos e enfermeiros tinham do caso àquela altura. Na consulta que antecedera minha ida ao consultório do Dr. Olímpio, não examinaram Helena. Felizmente não foi preciso tirar sangue, nem colher urina, não foi preciso que usassem de precária psicologia para evitar seu choro, nem de técnicas aprimoradas para amenizar sua dor. No meu colo, procurava deixá-la confortável e acolhida. Esperávamos. Mauro e o Dr. Olímpio conversavam numa das poucas salinhas disponíveis no setor de oncopediatria. Helena e eu nos distraíamos olhando outras crianças brincando à nossa frente. Na maior parte, leucemia. As mães carregavam sacolas enormes, encardidas de ônibus lotados e sujos. Aquelas crianças carecas, morenas, magrinhas, com abrigo e tênis novinhos comprados nas Americanas transformavam o amarelo pálido daquelas paredes em luz solar.
Apertei minha filha contra o peito quando vi o rosto transfigurado do Mauro se aproximar. Nos abraçou. Calados, fomos para casa. Você entendeu bem? Mas e o que disse o Dr. Ernesto? Não vale nada? A Nena já dormia tranqüila em nossa cama quando resolvemos ligar para o Dr. Ernesto. Mas, doutor, você não nos disse que o que se vê na ressonância é necrose provocada pela radioterapia? Não é bem assim? Mas você nos disse ... Entendo. Há mais alguém que pode nos ajudar? Não. Nem fora do país? Não. Obrigada.
...
Apesar de ser inverno, o sol batia quente em todos os vãos da sala de estar. Coisas de São Paulo. Da gaiola dourada estilo japonês, o Dudu cantava solto sua única canção, infinitamente bela em notas que se repetiam todas as manhãs. As plantas - e suas flores que vez por outra renasciam para nos surpreender com as mesmas cores renovadas - não se importavam de permanecer em vasos dispersos por alguns poucos cantos do apartamento pequeno, distantes que estavam de qualquer jardim que lhes pudesse trazer de volta a úmida e verdejante memória de sua origem. Pareciam fazer coro ao Dudu, num uníssono que afirmava ser ali, sim, o paraíso recriado. Perto da porta de entrada, o chapéu Panamá do tio Gil pendurado num preguinho discreto daria boas-vindas aos que eventualmente chegassem depois do almoço, constrangidos mas felizes de poder pronunciar palavras de consolo ou resignação, ou palavras de fé. As primeiras o vento encanado que vinha da área de serviço se encarregava de soprar pela janela da sala. As de fé, estas se impregnavam ao nosso paraíso.
Mas que anjinho pesado! Onde estão suas asinhas que não vêm me dar uma ajuda? Crescida e gorducha - inchaço da cortisona em doses cavalares -, Helena se agarrava no meu pescoço reclamando de ter que sair da cama do papai e da mamãe e ir para o sofá da sala tomar sol. Que delícia poder carregá-la assim ... oferecendo-lhe o apoio completo. Podia sentir sua respiração em meus ouvidos e seu coraçãozinho pulsando no meu peito. Quanto mais difíceis eram para a Nena os movimentos mais simples, mais desafiadora era minha tarefa de fazê-la sentir prazer das mais variadas formas, mudando locais e posições. Havia o incômodo, sim, mas havia também o sol que aqueceria seus tornozelos tão frios e bronzearia sua pele branquinha e a alegria de ouvir o Dudu bem de pertinho, embora já fosse duro enxergar claramente seu peito verde de canarinho da terra. Debaixo do chapéu florido que protegia a carequinha do pós-operatório, os olhos azuis de Helena me olhavam agradecidos por tê-la posto deitada. Está bem. Mas a cabecinha poderia ficar mais alta. Choro. Está bem. Assim. De novo o olhar agradecido, o esboço de um sorriso ... Com meu indicador, erguia delicadamente o canto esquerdo da sua boca, semi-paralisado. Agora sim, querida, um sorriso completo! Risos, beijos, tantos beijos por todo o seu corpo absolutamente perfeito, alvo, origem e destino de toda a luz.
Em minutos trazia da cozinha nosso kit matinal. A primeira bandeja era muito bem-vinda: sopinha fresca, temperada de leve, só alimentos naturais, bom azeite, e os produtos da minha fé inabalável: cartilagem de tubarão e cogumelos especiais, saborosos e terapêuticos. Rodei para achar. Depois tinha o suco de laranjas docinhas na mamadeira de verdade que era da sua boneca preferida e que agora pertencia à minha boneca preferida. A cada colherada, minha alma se embebia daquele olhar azul, e das leituras que ambas fazíamos de nossos olhares apaixonados nascia o entendimento absoluto. Naqueles momentos eu sabia que se Deus não existisse, urgia inventá-lo logo, pois só a noção de Deus poderia explicar o que se passava entre nós. A total entrega amorosa, que eu só imaginava possível em romances, acontecia ali, na intimidade de nosso paraíso, discretamente aplaudida por um passarinho de peito verde, reflexo distante da umidade verde de todas as origens.
A segunda bandeja era mal recebida, ou melhor, era recebida com uma certa tristeza resignada. Eram os remédios. Tantos ... E quase todos amargos. Depois aprendi a dissolvê-los juntos em um pouquinho de leite. A pasta branca intragável cabia em uma colher de chá. Foi o melhor que pude fazer. Depois aprendi que o mel poderia tirar o gosto ruim da boquinha. Mas os remédios tinham um certo gosto de fundo que não ia embora tão fácil. Era preciso agüentar. E a Nena agüentava. E eu procurava recompensá-la com prazeres redobrados. Os remédios homeopáticos, muito mais gostosos, ficavam pro fim. O sol esquentava. Meu rosto queimava mesmo debaixo do chapéu Panamá do tio Gil, que tomava emprestado todas as manhãs para acompanhar minha Helena em nossa prainha. Que tal uma música bem alegre? Rebolando e gesticulando, dancei muitas rumbas e coisas parecidas. Cuba não fica perto do Panamá? Devagar, o amargor desaparecia ...
...
Rafael estava inquieto, da televisão pro videogame, do videogame pra minha cama, da cama de volta à TV e assim várias vezes. Finalmente aquele seu movimento regular à esquerda do meu raio de visão conseguiu desfazer a onda magnética que me conectava à tela do computador. Saí do transe e fingi não perceber sua agitação. Nossa! Quando trabalho neste computador perco a hora! Não tem mensagem da tia na Net, filho. O que quer? É melhor ir para o banho. As mesmas ordens maternas, gestos sincronizados com pretensões educativas, esvaziados pela repetição. Amadurecido em seus nove anos, sabia que o que eu dizia não tinha a menor importância e continuava a rolar de um lado a outro da cama. Sinceramente não me ouvia. Eu levo a toalha pra você. O pijama deixarei em cima da cama como sempre. Não esqueça de colocar a roupa debaixo no cesto. Deixe a bermuda e a camiseta de fora. Vou ver se dá pra usar mais uma vez. Puxa! Você já devia ter aprendido tudo isso. Até quando terei que repetir as mesmas coisas? Rafael! Rafael? Ficou surdo? Era preciso ir em frente e não fingir mais. Havia lágrimas em seus olhos amendoados. Rafael, o que foi, filho? ... Mãe, você pega a mala da Nena? Eu quero escolher alguma coisa dela pra mim.
Era um daqueles fins de tarde de início de primavera exageradamente quentes para a época. Eu estava cansada, andava me ocupando ao máximo, não queria mexer em mais nada, muito menos em lembranças inúteis. Senti um calafrio, um nó na garganta que no mesmo instante se desfez. Ele precisava de mim, precisava muito de mim. Eu não podia me esconder em minha tristeza. Eu precisava agir com coragem e, pior que tudo, dar respostas ... respostas que eu também não tinha.
Tirar a mala debaixo da cama não foi fácil. Rafael se enfiou por entre os pés e a empurrou, enquanto eu com uma mão levantava um pouco o estrado e com a outra puxava a mala pela alça. Pronto. Sopramos a poeira e abrimos. Todas as roupinhas dos últimos tempos estavam lá. Socadas e servindo de apoio para as bonecas mais especiais da Nena: as de rosto pintado com caneta Bic. Nenhuma ficou com a cabeça sem apoio em algo fofo, o que a Nena jamais permitiria. Era uma excelente mamãe. No carrinho as bonecas se amontoavam, mas jamais sufocando umas às outras! A carteirinha de plástico guardava como a mais engraçada lembrança duas notas de um real, dobradas inúmeras vezes, tantas quantas foram necessárias para a Nena conseguir enfiar o dinheiro dentro. Rimos. Não, Rafa, deixe o dinheirinho da Nena aqui mesmo. Veja! O porta-jóias de brinquedo da Barbie! Ele fala ... "You look pretty! Jewlery is fun! You look pretty!" ...
Sim, Helena, ninguém era mais linda do que você, ao sair para passear com suas bonecas, enfeitada com todos os anéis e colares do seu porta-jóias. Você, obviamente, não precisava de nada disso, só aquele sorriso, aquele olhar de mar profundo e sem ondas ... Que saudade ... Quantas lembranças ... Se você pudesse voltar, só um pouquinho... Ponho em minha boca palavras que poderiam ser minhas e digo, recitando para Rafael um trecho de Tagore ... "Quando ela foi embora, a noite estava escura e todos dormiam. Agora a noite está escura e eu chamo: ‘volta, filhinha, volta! O mundo está dormindo, e ninguém ficará sabendo que vieste por um momento, enquanto as estrelas se contemplam’. Ela foi embora quando as árvores estavam em flor e a primavera ainda era criança. Agora as flores já se abriram e eu chamo: ‘volta, filhinha, volta! as crianças colhem e espalham as flores em brincadeiras descuidadas, se vieres pegar um botãozinho, ninguém dará pela falta!’ A vida continua tão despreocupada. Quem costumava brincar, continua brincando. Ouço a algazarra que fazem, e chamo: ‘volta, filhinha, volta! O coração da tua mãe transborda de amor. Ninguém ficará com inveja, se vieres depressa dar-lhe um beijinho...". Mãe, mãe! Tô falando com você! Helena me escapou como um pássaro da gaiola desatentamente deixada aberta, levando no bico o mais belo botão do jardim e um beijo que não houve. Mãe, quero uma boneca. Vou dormir com uma boneca da Nena. Você jamais imaginou que eu ia dormir com uma boneca um dia, né, mãe? Bem, mas então que seja esta de pano. Esta a Nena ganhou da mamãe e do papai quando fez um aninho e não irá machucar você porque é de pano.
Mãe, você sabe como é quando a gente morre? Rafael falava visivelmente tranqüilizado. É assim, continuou, de dia é a vida. A gente faz o que tem que fazer, anda pra lá e pra cá, tem sol, luz. De noite é a morte. É quando chega a hora de pôr um pijama bem largão, tipo túnica de anjo, e deitar, dormir até o dia chegar de novo. Deus! Como você pode dizer coisas tão lindas? Abracei-o sem resistência - em geral Rafa detesta beijos e abraços. Ah, mãe, você mesma me contou, ou melhor, cantou. Lembra da música? "Todo dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia ... Fim da tarde a terra cora e a gente chora porque finda a tarde ... Quando à noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite ..." Apertei-o bem forte junto ao peito. Rafael ficou recostado em mim cantarolando a música. Deixei-me ficar ali, com ele, experimentando o movimento absolutamente regular do dia e da noite se alternando em nossas almas amorosas, que pairaram por instantes acima do tempo e do espaço. Não havia mais perguntas a fazer nem respostas a dar. Anoitecia.
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Dr. Ciro, o novo pediatra, olhava com carinho para a Nena enquanto a examinava. Gostei de seu olhar. Não havia pena, ou a compaixão hipócrita dos que antes de tudo pensam: "ainda bem que não é com meu filho". Havia, sim, um profundo respeito pelo difícil caminho que aquela criança deveria percorrer ... Talvez pudéssemos pingar um colírio especial neste olhinho, dizia. Está vermelho porque a lacrimação está difícil. Quanto ao catarro que a cortisona não pára de estimular, vamos insistir com a medicação alternativa. Vejam, temos que preservar ao máximo o seu bem-estar diário, certo? ... Ah, que prazer compartilhar alguns minutos com alguém que, como nós, teimava em lutar com alegria. Abraçar a luta com amor, afugentar o medo, e acreditar, acreditar, acreditar sempre, afinal um paciente terminal ainda é um paciente, não está morto!! Mauro e eu, mãos úmidas entrelaçadas, já com a Nena no colo após o exame, esperávamos para ouvir. Em geral, muito pouco se pode fazer para modificar certos caminhos que se traçam implacavelmente à nossa frente. Quando um caminho de pedras se estende diante de um ser que amamos, não é possível pavimentá-lo, as pedras estão lá, firmes. Mas é possível tornar mais bela a paisagem, enfeitando-a com as flores coloridas que brotam dos corações amigos. É possível aliviar a dor das feridas abertas nos pés, pode-se limpá-las, beijá-las, e assim os pés continuarão adiante, pisando mais fundo. Talvez se possa polir as pedras mais pontudas, correndo na frente do ser amado antes que seus pés novamente se firam. Mas nada nem ninguém poderá provocar desvios. Muito menos conter o ser amado com abraços grilhões. Nenhuma prisão tem muros suficientemente altos ou grades suficientemente rígidas para conter o destino. Pais amorosos simplesmente estendem suas mãos, caminham juntos, ferem seus pés poupando os do filho, quando podem.
Ao final da consulta, percebi que a casa em que ficava o consultório era discretamente bonita e aconchegante. A rua, calma e arborizada, acolheu-nos à saída, no portão, com um vento fresco que trazia os sons e cheiros da vida que vingava insistentemente. A dois ou três quarteirões, o cinza da Av. Santo Amaro poderia facilmente contrapor a esses sons e cheiros os sons cinzas e os cheiros apodrecidos de uma realidade reduzida, acovardada. Mas a réplica urbana não nos dizia respeito. Por um milagre, saltamos a avenida como crianças que pulam amarelinha e chegamos, imunes, ao Céu, após recolher a pedrinha no chão. Na verdade, nós havíamos recolhido quase todas as pedrinhas do caminho de nossa Nena. Em nosso Céu, abraçados e cansados, fomos dormir.
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Papai comprou um carrinho para você, filha! Olha lá! Lá vinha o pai, quase em piruetas, nunca se viu uma demonstração como aquela. O carrinho era lindo, todo azul, superconfortável. A cabecinha teria o apoio necessário com as almofadas ajustáveis, os pés igualmente estariam firmes, havia apoio para braços e mãos e o cinto de segurança no peito evitaria todo o tipo de abalo doloroso. Vem, filha, vamos experimentar. E o papai Mauro insistia ante a dúvida da nossa princesa, para quem, àquela altura, a caminha do papai e da mamãe era o lugar mais gostoso do mundo. Vamos passear até a casa da vovó! Tomar sol, ver o céu azul!! Que tal? A idéia de ver a vovó querida agradou Helena, que fez que sim com a cabeça. Como sempre procurando superar toda dificuldade, finalmente sentiu-se confortável no carrinho. Papai ajudou em tudo: posicionou o corpinho bem no meio, acomodou a cabecinha, que ficou firme entre os dois fofinhos, desdobrou o pezinho que tinha entortado entre os vãos do apoio para os pés, cobriu as perninhas - tão frias por falta de movimento -, ajeitou o cabelo, beijou as bochechas e, inflado de alegria diante daquele acontecimento, endireitou o carrinho a caminho da porta, apontando-o para o elevador.
Havia um misto de dúvida e insegurança nos olhos de mar profundo da minha Nena. Mas com pai, mãe e irmão pulando à sua volta radiantes, cedeu à nossa alegria e confiou. Seu corpinho frágil estaria seguro naquela andança não só porque o carrinho parecia muito adequado, mas também - e mais do que tudo - porque era levado por três corações esperançosos que se uniam e formavam o mais firme, quentinho e aconchegante dos berços. Por misericórdia divina, e não por outro motivo, postura outra era impossível para aqueles pai, mãe e irmão apaixonados.
Da janela do sexto andar, gritei muitos tchaus e mandei muitos beijos e desejos de bom passeio. Rua acima, meu marido e meus filhos tomavam rumo.
Em casa, na calma triste que se impregna em tudo assim que se ausentam os seres mais amados, pensava aflita: o que será de nós?
...
Passar um fim de semana no sítio após tantos meses... Difícil, sem a Nena, que gostava tanto de lá, tanto tanto... Há menos de seis anos, grávida de pouco, Rafael pequeno, casa por construir, mato por carpir, tudo por fazer, era a certeza de estarmos colorindo um sonho familiar que dava vigor aos nossos esforços. Agora, sem Helena, olhávamos em volta procurando o sentido que restava. Felizmente, pudemos apreendê-lo nos olhos de Rafael. Satisfeito por estar lá, suado, sujo de terra, chutava a bola no campinho com garra, se preparando para mais um campeonato de futebol com a molecada da região.
Porta-malas esvaziado, Mauro foi cuidar da égua, enchendo os bolsos com punhados de milho para atraí-la e reconquistá-la após a ausência. Vovó pôs-se a cavoucar a terra para plantar mais uma mudinha, que brotaria, corajosa, apesar dos cuidados precários que receberia do caseiro, o bom Nelton, cuja filhinha, Carolina, que antes rodeava a casa saltitante às voltas com bonecas e demais apetrechos, agora mal nos espreitava de longe, por detrás do galinheiro, triste de não ter mais a amiga para brincar. Quanto a mim, deitei na rede para ler. Bem que tentei. As letras me escapavam e meus olhos, sem disposição para alcançá-las, saltavam para a paisagem, perambulando vagabundos. Do embate entre a potencialidade das palavras escritas e a realidade essencialmente verde da qual, naquele lugar, era impossível escapar, vencia a segunda, em benefício de ambas.
A noite veio preguiçosa, mas determinada. Sempre gostei das noites no sítio, escuras e tranqüilas. Lá durmo como só dormia quando era criança, sob o aconchego da manta paterna. Agora é o manto negro das noites no sítio que protege meu sono. Lá o manto negro da noite é mais negro. Não há estrelas. Elas se escondem atrás da densa névoa orvalhada que recobre as madrugadas de Juquitiba. Mas, naquela noite, um rasgo estrelado no manto abriu-se especialmente para mim... E tive um sonho, que não quis que fosse sonho:
Dirigia um carro qualquer, que provavelmente era o meu carro, não sei bem. Não me importava buscar um caminho para seguir, pois o carro seguia sozinho, tomando o cuidado de fazer-me crer que era eu quem dava os comandos. Lembro-me de ter passado pela rua João Cachoeira, onde eu e Mauro moramos assim que nos casamos, e de ter entrado na garagem do prédio, justamente o prédio onde morei. Estava tranqüila, apenas tinha a vaga sensação de que tinha algo a fazer, embora não soubesse o quê, e isso absolutamente não me incomodava.
O porteiro mulato magro de uniforme azul claro da garagem excessivamente iluminada parecia me esperar. Após alertar-me de que havia usado o controle do portão da garagem de forma incorreta, estendeu-me uma chave dourada e pediu-me que seguisse a pé por uma escada rolante por onde subiam inúmeros velhinhos e velhinhas, tranqüilos como eu. Sabia que aquela chave dourada era importante, era um presente, mas não me preocupei em saber que chave era aquela ou para quê me havia sido dada.
Após subir pela escada rolante, vi-me na frente de uma grande porta de vidro, através da qual se via o que aparentava ser uma sala de espera. Entrei e observei. Havia pessoas circulando, outras estavam sentadas, não me lembro mais dos rostos. Sentei-me na única poltrona vazia. À minha frente, um longo corredor ao final do qual, pela porta aberta, se via a agitação comum a festas de criança. Havia balões de gás coloridos enfeitando teto e paredes e muita gente ruidosa indo de lá para cá. Não vi nenhuma criança.
Sabia que tinha que esperar. Distraí-me observando o teto. Era pintado de um cor de laranja que nunca tinha visto antes e pontilhado de focos de luz que se posicionavam assimetricamente, como estrelas no céu. Eram focos bem pequenos, mas de luz bastante intensa. Uma figura de mulher veio se aproximando de mim. Vinha do fundo do corredor, da sala onde estava acontecendo a tal festa. Era alta, pele clara, de cabelos curtos castanhos e cheios, tinha olhos escuros expressivos e usava uma roupa muito séria - saia tubo abaixo dos joelhos, camisa de mangas compridas abotoada até o pescoço, sapatos e meias que lembravam os sapatos e meias usados pelas madres do colégio onde estudei. Gostei dela. Entendi que pedia que a seguisse até a festa. Então me dei conta de que as pessoas não precisavam falar nesse lugar. Percebi que havia entendido o porteiro e ele não havia de fato dito uma palavra sequer. Segui-a .
Já na sala, cumprimentei algumas pessoas idosas que estavam sentadas à minha esquerda. Todos pareciam me conhecer e, mais, pareciam estar contentes por me ver. Eu ainda não sabia o que me aguardava, mas esta ausência de motivo não me angustiava. Continuava tranqüila e esperava. Por trás das pessoas que estavam à minha frente parecia haver uma mesa de aniversário enfeitada, com bolo e outras coisas gostosas. Esperavam que eu fizesse algo. Como eu não reagisse, a mulher alta me olhou e, agora com certa impaciência, pediu que eu virasse para a minha direita. Foi então que vi Helena, linda como sempre, aparentando ter exatamente a idade que teria se estivesse... Oh! Não podia ser! Mas era! Eram os mesmos olhos azuis, era o mesmo sorriso franco e alegre! Seus cabelos estavam compridos, é bem verdade, como ela sempre os quis ter, mas ainda assim eram os mesmos cabelos loiros com certo tom de cinza, só que amarrados em uma trança que lhe caía pelo ombro direito, ligeiramente desnudado graças ao modelo de seu vestido cor-de-rosa, mangas cavadas, estampado de minúsculas florzinhas que pareciam ser azuis. Nas mãos, uma bonequinha, que deveria ser a bonequinha que minha mãe lhe havia dado para acompanhá-la na longa viagem. Não pude ver suas pernas, nem os sapatos que calçava. A imagem não se compunha por inteiro, e assim mesmo me arrebatava. Em profundo estado de choque, sem conseguir me aproximar para abraçá-la, não suportando o misto absoluto de dor e alegria diante da visão da filha amada, desatei num choro atordoado, sem voz, amarrado na garganta como é o choro dos sonhos. Em desespero, o nome Helena procurava espaço para romper garganta afora, e, contraindo-se em meio às cordas vocais, desfazendo o nó em meio à dor, desembrenhando-se de meu ser convulso, o nome Helena ecoou na escuridão, costurando para sempre o manto escuro de todas as noites.
Uma tarde, na casa de minha mãe, distraía-me observando-a arrumar uma gaveta repleta de bijuterias antigas que me remetiam à infância, quando, em meio a caixinhas emboloradas e brincos psicodélicos, brilhou um pingente, uma pequenina chave dourada. Imediatamente puxei-a para mim perguntando que bijouteria seria aquela, que escapava à mais longínqua memória que tinha dos pertences de minha mãe. Mamãe não se lembrava dela. Disse-me, brincando, que provavelmente estaria ali esperando por mim.
...
Mauro e eu, sentados no degrau da varanda em nossa casinha no sítio, olhávamos a Nena brincando com uma ponta de preocupação. Havíamos observado que seu olho direito não estava focalizando como deveria; parecia estar ligeiramente voltado para dentro. Felizmente era domingo, logo voltaríamos para São Paulo e no dia seguinte ligaríamos para o Dr. Gabriel, o pediatra. Poderia haver estrabismo súbito? Procuramos relaxar, pois, no geral, Nena estava bem. Já havíamos passado por tantas doencinhas infantis. Ter filho é isso mesmo. Enfrentaríamos mais essa. Que há de mal em usar óculos?
Dr. Gabriel, a Helena está ficando estrábica! Gostaria que você a visse ... Melhor... ir direto ao oftalmologista. Decepção... Por que não quis vê-la? Indico o Dr. Erasmo Couto, ótimo profissional.
O consultório do Dr. Erasmo era como todos os consultórios de médico particular que não atende convênios. Bem decorado, café e balas à disposição, recepcionista arrumada e atenciosa, apenas três pessoas na sala de espera. Enquanto a Nena se divertia com as balas, eu tentava controlar uma espécie de tênue e incômodo suspense que me fazia respirar mal e sentir as batidas do meu coração. Que demora! Quando finalmente fomos chamadas, apressei-me a jogar no lixo uma quantidade que parecia infinita de papéis de bala coloridos. Calmo e gentil, jovem ainda, o Dr. Erasmo Couto examinou Helena. Foi um longo exame, longo demais. Entre uma etapa e outra, colírio para abrir a pupila, espera, mais balas, depois mais espera. Nena fazia o que lhe pediam, endireitando o corpo enfeitado pelo seu vestido preferido (cor-de-rosa e estampado com pequenas flores, claro!), depois olhando lá longe, depois de um lado, do outro, com um olho fechado, depois o outro. No final, a recepcionista, que além de tudo gostava de crianças, levou Helena para que eu pudesse estar a sós com o Dr. Erasmo, que começou dizendo que eu ficasse tranqüila. O exame que pediria em regime de urgência era apenas para que pudéssemos eliminar a pior suspeita, ou seja, a de uma lesão cerebral que estaria afetando o conjunto de nervos da visão. A ressonância magnética tornou-se um exame comum e a precisão do resultado evita diagnósticos equivocados. Não haveria risco, nem dor, mas normalmente aconselha-se a anestesia geral em caso de crianças, pois estas costumam ficar agitadas ao se verem obrigadas a permanecer absolutamente imóveis por vários minutos.
Preocupei-me, naturalmente. O tênue suspense transformara-se em grande aflição. Chegando em casa, pus-me a ligar para os laboratórios especializados que o convênio oferecia, implorando um horário em regime de urgência. O melhor que consegui foi um horário para dali a dois dias. Os demais laboratórios só tinham disponibilidade para dez ou quinze dias adiante... Mal sabia que minha indignação com o sistema de saúde apenas começava. Bem depois percebi que a morte precoce assusta em particular aos médicos ... Resignei-me à longa espera e liguei para Mauro buscando afagos mútuos. A rotina se mantinha estável, mas uma sombra muito escura pairava sobre nossa casa. Mauro e eu iniciamos naquela primeira semana de fevereiro de 1997 o incansável trabalho de soprá-la longe a todo custo, protegendo Helena daquele ainda estranho ladrão de nossa luz.
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Por meses procurei nos olhos de cada menininha de quatro ou cinco anos que via pela rua algum sinal, algum pequeno brilho, um jeito, um trejeito, algo que fosse de minha Nena, uma mensagem ... E nada, não havia sinal nem esperança. Era inútil buscar nos olhos de outra criança o que eu precisava. Então comecei a achar que ter mais um bebê seria a recompensa completa, a volta ao paraíso, a possibilidade de movimentar o amor que estagnara no meu peito. Imaginava que a criança poderia ser muito parecida com a Nena, de preferência uma menininha, sim, porque meu amor tinha endereço certo: tinha que ser uma menina. Mas e se não fosse? Seria. Seria loira e alva, os olhos profundamente azuis, o sorriso alegre e faceiro, o gênio afável, o coração amoroso. A princesa das princesas. Mas, como todo sonho que é de fato um sonho, era perfeito demais. Não cabia na realidade. Era apenas a doce ilusão de voltar a um lugar que ficou para sempre perdido.
E, como é típico dos sonhos, aos poucos se desfez, dando passagem ao vigor pragmático que trinta e nove anos ainda sustentam. Comecei a fazer projetos, projetos de vida, sim, porque viver era a grande vingança!! Viagens, cursos no exterior, novos trabalhos, produção científica, estudar, estudar, aulas, alunos, escrever ... ganhar dinheiro! Um regime eficiente também, quem sabe entrar de novo em um biquini. Tornar-me uma mulher mais atraente para meu marido e para mim mesma e mais inteligente para o mercado de trabalho. Adoro dançar, assim me animei a queimar calorias dançando sem parar os discos do Rafael. Quase uma hora sem trégua e sem água. Cheguei a me iludir com a sensação de juventude que me invadia nessas horas. Depois o Mauro me contou que é tudo por causa de uma bendita enzima - ou seria hormônio? - que o corpo libera para o cérebro quando se exercita ... Desanimei. Voltei a sonhar com o bebê, mas agora, impregnada de realidade, os sonhos se tornaram mais palpáveis. Admiti que fosse um menino. Admiti a realidade das fraldas, o choro, as madrugadas acordada ... leite escasso, cansaço ... Doenças, doenças ... o pavor das doenças ... tudo de novo ... a perda ... o amor estagnado. Passei a fugir agoniada dos olhos infantis com que cruzava, principalmente se fossem azuis.
O medo é um sentimento muito difícil de explicar. Não posso descrevê-lo, porque ele é tão poderoso que me impede até de tentar. O medo é tão presente que deveria ser nome próprio: o Medo. Lembro-me do quanto eu gostava de filmes de terror quando era criança, enfrentando o medo com a coragem possível. Minha mãe dormia no sofá vendo televisão, enquanto eu e minhas irmãs, que supostamente deveriam estar no décimo sono, pé ante pé, avançávamos do quarto, arrastando os travesseiros, para sintonizar devagarzinho a TV para o canal certo. Eram mortos vivos, seres de outro mundo, sangüinários, cruéis ao extremo que, depois de um suspense asfixiante, atacavam crianças e mulheres indefesas, bem na hora em que os homens não estavam. Eles nunca estavam. Meu pai também não, mas minha mãe dormia no sofá e sempre havia a possibilidade de acordá-la, pedir-lhe que desligasse a TV, pois eu e minhas duas irmãs abraçadas aos travesseiros e grudadas umas nas outras não ousávamos sair de onde estávamos.
Agora estou longe de minha mãe, de minhas irmãs, meu pai está morto, não há quem possa desligar o botão para mim.
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O Dr. Gabriel tinha sido até então uma figura fundamental em nossa história com Helena. Pediatra carinhoso, foi ele que "salvou" o parto de nossa filha. Explico desde o início:
Naquela manhã do dia 12 de junho de 1992, dia em que Helena nasceu, o ritmo no escritório era tranqüilo. Diante do computador, dava conta no prazo de mais uma tradução de um desses manuais de usuário que ninguém lê.
A manhã, ensolarada e ligeiramente fria, progredia sem maiores contratempos, até que, suave mas regularmente, as contrações começaram a sacudir minha musculatura inferior, num claro alerta de que alguém muito esperado não queria mais esperar. Eu que fosse tomando as devidas providências, era o que eu ouvia soar através do baixo ventre como uma ordem radical.
Preciso ir para casa. Acho que é hoje. Peguei a bolsa e a chave do carro e saí andando com certa dificuldade, mas irradiando disposição. Dirigi até em casa. Lá chegando, tomei um banho quente para relaxar a musculatura enquanto minha cunhada e sócia, que me acompanhou desde o escritório, ligava para Mauro. Em uma hora, Mauro despencava em casa pronto para as emoções que o aguardavam e a todos nós. Rafael, ainda muito pequeno, foi poupado dos momentos de maior tensão indo se divertir na festa de aniversário de uma amiguinha.
Fomos à maternidade às duas da tarde, mas nos mandaram de volta dizendo que não havia dilatação suficiente. Ia demorar mais. O médico que nos atendia recomendou o mesmo por telefone. Ninguém apostava na pressa de Helena para chegar neste mundo. Minha pequena apressadinha parece não ter maiores dificuldades para transpor os umbrais da vida e da morte. Movimenta-se entre uma e outra esfera com a facilidade dos que pairam acima do peso da materialidade do corpo. Naquela ocasião, a pressa era para chegar até nós, e não para partir. Em casa, meu corpo preparava-se compulsivamente para recebê-la. Mauro, mal chegamos aqui e já acho melhor voltarmos à maternidade. Suava de dor, medo e emoção, mordia os lábios e rezava. Não esqueci de engolir a minúscula oração escrita em um ainda mais minúsculo papel enroladinho, que me foi dada por uma dessas pessoas que passam rapidamente pelas nossas vidas apenas para nos prestar um favor especial, e que depois somem para sempre.
Às cinco da tarde, apoiada no braço de Mauro, subia pelo elevador do Albert Einstein. Às cinco e trinta e cinco Helena nascia em meio a uma grande confusão na sala de parto. Meu médico não chegava, todos se movimentavam de lá para cá sem saber se começavam ou não o que deveriam começar a fazer em mim. Depressa!, eu gritava, alguém segure minha criança, ela está nascendo!! E Mauro, que não pôde entrar, ouvia meus gritos e rezava, ao mesmo tempo em que era obrigado a preencher formulários e cheques.
Mas Helena não precisava que ninguém fizesse nada de especial para abrir as portas da sua chegada. Determinada, em poucos minutos urrava avisando que estava entre nós, após ter me proporcionado o indescritível prazer de senti-la chegando, empurrando com firmeza as paredes de minha vagina, numa carícia certeira e infalível, o melhor orgasmo que já tive. Lá estava ela, ruiva, contorcendo-se num choro angustiado por ter sido tirada de mim daquele jeito e posta numa superfície plana e sem aconchego, nua, braços e pernas sacudindo-se no ar buscando alguma referência familiar nesse mundo novo que a recebia sem maiores cuidados, como que sabendo que aquele menina era forte o suficiente para agüentar.
Foi quando meu médico chegou. Para me costurar. Com ele veio Gabriel, que, predestinado pelo nome, anjo de luz e porta-voz da vida, transformou o ambiente com medidas simples. Ao entrar, imediatamente diminuiu as luzes, depois aproximou-se do nenê enquanto solicitava à enfermeira uma banheirinha cheia de água morna. Segurou Helena nos braços como eu nunca vira um homem fazer. Ajudou-me a sentar, cobriu meus ombros com a delicadeza de um pai amoroso e fez com que eu e Mauro, agora sim perto de mim, mergulhássemos nossa criança naquela água tranqüilizadora, capaz de trazer de volta por alguns instantes um pouco do universo do ventre materno que seria para sempre e necessariamente esquecido. No mesmo instante nossa Helena parou de chorar. Todo o seu pequeno corpinho soltou-se na água e nós pudemos acariciá-la com nossas mãos sem luvas. Depois, pude enxugá-la, enrolá-la num manto e, também com a ajuda de Gabriel, dar-lhe meu peito, que ela sugou ávida por sentir o que a esperava aqui neste mundo, que a alimentaria e a conduziria por caminhos insondáveis.
Não é clara a imagem que tenho de Helena tão pequena em meus braços. Esse é um tempo que ficou tão distante ... Posso apenas sentir em meus braços a Helena de cinco anos, que precisava de meu colo mais do que nunca. Sinto ainda suas mãozinhas rechonchudas e branquinhas, sua boca coração procurando ainda expressar suas necessidades, seu calor entrando pelo meu peito e me enchendo de esperança, seu olhar me pedindo para ficar por perto. Sim, minha filha, estarei sempre por perto ...
O anjo da vida, que a acompanhou por quase cinco anos como pediatra e amigo, no entanto, não pôde estar por perto nos meses em que mais precisamos dele. Após um ou dois telefonemas para encaminhamentos a outros médicos, Gabriel sumiu de nossas vidas. Nunca quis ver Helena, nunca nos visitou. Compareceu ao enterro e eu, ao vê-lo, enchi-me de felicidade, pois ele, como anjo da vida, talvez ... ainda ... talvez pudesse acrescentar alguma vida àquele dia de extremo desamparo.
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A primeira sessão de quimioterapia correu bem. Enquanto aguardávamos o atendimento em mais uma dessas salas de espera arrumadinhas, trocávamos algumas palavras com um senhor que também aguardava sua sessão. Tinha um câncer de estômago que não cedia facilmente. Estava sob controle e não causava muito mal-estar, por enquanto. Sabia que iria morrer, mas isso não importava mais. Estava cansado. Enquanto falava, olhava para Helena, deitada em nosso colo, já totalmente imóvel, sem poder mais falar, a visão bastante comprometida, mas lúcida e atenta. O velho continuou seu desabafo, sem atinar que Helena o ouvia bem. Dizia que Deus o poderia levar quando quisesse, agora, quanto a essa criança em nosso colo, por que Deus haveria de querer levá-la? Por quê? Certamente era um equívoco. Concordei com as últimas palavras e acrescentei que Helena ficaria boa. Mauro procurava distrair Helena para que não ouvisse palavras de morte. Só a vida importava. Helena ficaria boa.
O quarto era bastante agradável e confortável. Helena gostou da caminha e sorriu quando percebeu que além da picadinha para ligá-la ao soro nada mais iria incomodá-la. O líquido "milagroso" seguiria por suas veias junto com o soro. Destino: seu cérebro. Objetivo: exterminar as células ruins do tronco cerebral e arredores. Risco: danificar células boas. De nada disso Helena tinha sequer noção. Ficaríamos juntos ali por algumas horas e isso era tudo que interessava.
Abri uma sacola de onde tirei um arsenal de livros infantis. Sentei-me pertinho de Helena e passamos o que seriam suas últimas horas de lucidez viajando por um delicioso universo de histórias mágicas. Helena ouvia. Eu contava e mostrava lindas figuras. O mundo das princesas é fantástico. Sapos que se transformam em príncipes, casebres que escondem em seus porões tesouros inacreditáveis, bruxas com maçãs mortais, madrastas que maltratam lindas e bondosas enteadas, malvadas irmãs postiças que são justamente castigadas no final, príncipes lindos e salvadores, e assim, entre o bem e o mal, o líquido da vida traçava um roteiro tortuoso, estratégico, a caminho do grande mal a debelar. O mal estava bem entrincheirado, seu poder crescia. A luta era desigual.
No dia seguinte, lá estávamos nós novamente. Não pude lhe contar muitas histórias, pois, no meio da sessão, Helena dormiu. Afastei-me da cama, sentei-me na poltrona próxima, fechei os olhos procurando descansar e não pensar. Mauro chegou com um lanche. Ficamos os dois ali, mudos, observando nossa filha que parecia tão tranqüila em seu sono já sem sonhos.
Dr. Edson, o médico responsável, aparecia de vez em quando. Conversava alegremente conosco e brincava com Helena. Fazia-nos sentir como se estivéssemos em uma consulta pediátrica de rotina, em que vencer uma dor de garganta é o grande desafio. O Dr. Edson apareceu em nossas vidas como a última tábua de salvação. Bastante confiante em seu trabalho, jamais nos prometeu a cura, mas nos mostrou que a quimioterapia poderia, sim, ser mais um caminho, apesar de todas as contra-indicações apontadas por outros médicos para o caso específico de nossa filha. Talvez por ser bem mais jovem, ao contrário do Dr. Olímpio, Edson não parecia ter medo da morte. Seu olhar guardava uma certa prepotência desafiadora diante dessa irreverente e malquista dama intrometida. Olhos nos olhos, com palavras alegres e um ar superior, Edson a subestimava. Por isso gostamos dele.
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É inumerável a quantidade de visitas, consultas, telefonemas e contatos vários que fizemos até que nos indicassem o Dr. Edson Feldman. Mais inacreditável ainda é que Edson atendia no Einstein, aonde por muitas semanas levamos Helena para as sessões de radioterapia. Lá, nunca havíamos ouvido falar o nome dele, muito menos de sua especialidade (neuro-oncologia). O Dr. Ernesto Ziebermann, responsável pela radioterapia, trabalhava em parceria com Edson em vários casos parecidos com o de Helena. Viemos a saber disto muito depois. Descobrimos, finalmente, que nunca nos haviam falado do Dr. Edson porque Helena já era paciente do Dr. Olímpio Dantas.
Opositores quanto a procedimentos clínicos, Edson e Olímpio transitavam em esferas médicas diferentes, mantendo a ponte de ligação entre elas permanentemente interditada, a não ser que pais desesperados, armados de pá e picareta, por conta própria tratassem de derrubar o muro. Paciente do Dr. Olímpio Dantas, do Hospital das Clínicas, Helena deveria seguir até o final uma única linha de tratamento. A oportunidade de conhecer e tentar outras opções não nos foi dada, foi duramente conquistada.
Demoramos para constatar que todos os médicos da área se conhecem, e bem, apoiando-se mutuamente ou rivalizando-se em vários níveis, não apenas no nível estritamente científico. Nesse contexto em que as vaidades facilmente entram em jogo, as indicações que fazem uns dos outros são restritas e governadas por uma ética bastante estranha, que jamais entenderei. Quando mencionei a Olímpio, na consulta em que ele definitivamente desenganou nossa filha, a idéia de iniciar um tratamento com o Dr. Edson - "o senhor conhece o Dr. Edson Feldman?" - , Olímpio limitou-se a rabiscar no papel a inutilidade daquela medida e os danos que causaria. Com seus olhos cansados de mortes, olhou-me por cima dos óculos e, ao perceber até que ponto ia minha esperança, cedeu e desejou-nos boa sorte.
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Era um lindo jardim. A tarde quente de um inverno ambíguo caía sem sombras. As cores se definiam como nunca. O verde era bem verde, o azul bem azul. As pessoas se juntavam em pequenos grupos, muitas de óculos escuros, que escondiam, da ousada e invasiva beleza do dia, lágrimas furtivas de olhos entristecidos e desesperançados.
Apoiada em Mauro, fortalecida e aliviada pelo seu amor, permaneci insistentemente de pé por muito tempo, calada, extasiada diante da beleza e do mistério que repousavam sob o único feixe de luz que escapava ao pôr-do-sol. A Beleza e o Mistério se transfiguraram magicamente em rosto, pálido e enrijecido rosto de criança. Toda a luz nele recaía e dele refletia. Perene.
Um muro intransponível me separava do belo e do misterioso, fundidos em minha filha Helena. Podia tocá-la, mas jamais poderia atingi-la. Podia beijá-la, mas meu amor não aqueceria sua alma. Podia, enfim, detê-la em meus braços o quanto quisesse, mas Helena continuaria sua caminhada para cada vez mais longe, mesmo que seu corpo em meus braços permanecesse até virar pó.
Entre nós, um tênue cordão, o mesmo da canção, a já tão distante canção cantada tantas vezes na gravidez ... "um cordão dourado começa a se formar, e o meu bebê está para chegar..." ... O mesmo cordão. Rompido no parto. Rompido na morte. Irreversível.
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Mauro e eu procurávamos não brigar na frente das crianças. Isto sempre foi um ponto de honra. Achávamos que era preciso preservá-las daquilo de que não podíamos nos orgulhar. Naqueles dias impregnados de doença, em que a lembrança da morte nos fazia prestar mais atenção à alegria que é viver, Mauro e eu discutimos muito pouco. É verdade quando dizem que a dor une. Diferenças ficam esquecidas quando se tem uma meta comum. E nossa meta era ousada: acabar com um câncer antes que ele acabasse com uma criança de cinco anos.
Naquela manhã, no entanto, muito cansados, acabamos brigando justamente na frente da Nena e por causa dela! Era difícil dar banho em nossa filha no período em que já não possuía nenhuma mobilidade, e ficou mais difícil depois da cirurgia de válvula, pois era preciso fazer assepsia e curativos. O banheiro da casa não oferecia conforto, assim, precisávamos dividir bem as tarefas que envolviam o banho para que a Helena pudesse ser bem cuidada, não passando frio ou sofrendo qualquer outro incômodo. Ficar na posição vertical para entrar no box do chuveiro, em que nós a colocávamos sentada em uma cadeirinha de plástico, era uma operação dolorida e desconfortável para ela. Reclamava bastante. Era preciso ter as toalhas à mão assim que o banho estivesse terminado, e era preciso levá-la logo para o quarto para lá vesti-la sobre a cama. A cama precisava estar pronta para recebê-la. Era preciso forrá-la, para que o descontrole urinário não representasse um problema na hora da troca, a fralda deveria estar à mão, assim como óleos, pomadas e utensílios para os curativos, além de toalhas extras para o caso de um acesso de vômito. Era bom, ainda, ter por perto uma manta, para cobrir o corpo da Nena que logo se resfriava, permitindo que as roupas fossem colocadas sem afobação...
Naquela manhã, no entanto, não me lembro se porque a toalha não estava à mão, ou se porque a gaze tinha sido esquecida, o fato é que Mauro e eu discutimos enquanto manipulávamos nossa filha. As mãos de Mauro, ágeis, massageavam as pernas de Helena com óleo de camomila, mas seus olhos se voltavam contra mim. Minhas mãos, ágeis, ajeitavam o travesseiro sob a cabeça de Helena, enquanto meus olhos se voltavam contra Mauro. O amor que deveria estar concentrado naquelas quatro mãos - em direção àquela criança que em tudo dependia de nós - escapava entre objetos vários dando lugar ao desafeto. Séria, Helena nos olhava. Entre tantas palavras ásperas, nossos olhares, sem querer mas ao mesmo tempo, se cruzaram com os de nossa filha. Envergonhados, nos calamos.
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A manhã do quinto aniversário de Helena chegou fresca e luminosa. Acordamos cedo, pois a festa começaria logo, meio-dia e meia, justamente o horário em que a van que Mauro alugara chegaria trazendo as crianças da escola e a querida professora, a tia Sônia.
Helena ansiara demais por aquele dia, participara de cada detalhe do planejamento do aniversário. Lembro-me da tarde em que Elisa, a organizadora da festa, veio à nossa casa mostrar as sugestões de decoração e cardápio. Coloquei Helena sentadinha no sofá, apoiada em grandes almofadas para que seu corpinho não caísse para o lado, e depositei em seu colo o álbum com as fotos das decorações. Tinha que ter muito cor-de-rosa. Enquanto eu virava as páginas, Nena fazia suas escolhas, rindo e apontando feliz para o que mais a agradava. Minha pequena criança, já com tantas dificuldades físicas - nem seu bolo de aniversário poderia comer, pois já não podia ingerir nada sólido - atuava no mundo com vontade e alegria. Podia escolher, sim, pois estava viva. O estrabismo não podia impedir que a vida brilhasse em seus olhos. Como pensar em morte ao observar Helena escolhendo sua decoração de aniversário? Nada, nenhum sintoma de degeneração falava mais alto que a vida que ainda a impulsionava com tamanha garra.
Naquela manhã, Helena, embora feliz, estava indisposta. É difícil descrever o que sentia exatamente, pois nunca pude compreender de fato que sensações, que manifestações - dolorosas ou não - ocorriam originadas do misterioso processo que acontecia dentro dela, à revelia de qualquer tentativa de contenção. Dor de cabeça, desta sim, incontestavelmente evidente, crescente, aliviada até então com analgésicos poderosos, desta eu entendia um pouco, graças às minhas regulares enxaquecas. Queria poder sentir tudo o que ela sentia, para poder compreendê-la, para poder ajudá-la melhor, mas como? O que acontecia exatamente por dentro de minha criança quando aos poucos seu sistema nervoso central perdia o controle? Como saber? Helena sabia, mas sobre isso pouco falava, em parte porque não podia, em parte porque sua pouca idade a impedia de ser descritiva, analítica. Por ter apenas cinco anos, via o mundo de outra forma, sentia sua dor de outra forma, talvez mais integrada, mais próxima. Sua dor era íntima dor que lentamente incorporou-se, incrível adaptação doente-doença, sem briga, sem oposição, inimaginável ausência de antagonismos. Como um adulto poderia entender isto?
Enfim, naquela manhã, tudo o que se apreendia de seu sofrimento eram resmungos frouxos e esparsos, pequenas queixas. Então entendi que talvez o que a incomodasse naquele dia em particular, mais do que a doença, fosse saber que em breve veria seus amiguinhos queridos, mas que não poderia brincar com eles. Nem ao menos poderia falar com eles. Permaneceria deitada em seu carrinho especial, corpo e cabeça ligeiramente inclinados para a frente, a fim de que pudesse enxergar o movimento, o alegre clima de festa, a linda decoração, os rostos amados que gentilmente se debruçariam sobre ela, os presentes ... e era tudo. Havia uma sombra de insegurança em seu olhar, talvez uma pitada de tristeza. Animei-a com vigor. Como você pode não ter vontade de ver sua decoração montada, Helena? Todos aqueles ursinhos cor-de-rosa, e as bexigas acetinadas, a mesa enfeitada com laços e babados, tudo ainda muito mais bonito do que na fotografia? Um sorriso de lado, o lindo sorriso de lado com o qual eu já havia me acostumado e aprendido a amar - assim como havia aprendido a amar seu corpo imóvel e seu olhar tortinho - e pronto! Lá estávamos nós indo para o banho. Mauro e eu já tínhamos adquirido toda a técnica necessária para banhá-la poupando-a ao máximo. Rapidinho, Helena, limpa e perfumada, já estava de vestido novo, meia rendada e sapato combinando! O cabelo, devidamente penteado do jeito que ela gostava (mas sem tiara ou fivelas, que incomodariam) enfeitava seu rostinho, agora já mais alegre, mostrando certa disposição.
Após a sopinha quente e nutritiva e a dose monstruosa de remédios, Helena estava pronta para subir ao salão de festas, na cobertura do prédio. O carrinho passava com certa dificuldade pelas portas estreitas, típicas de prédios modernos, e assim, esbarrando aqui e ali, lascando paredes e riscando batentes, chegamos ao salão. Foi um deslumbramento! Todo o mal-estar havia sumido. Helena olhava tudo e ria, um riso rouco e difícil. Ninguém havia chegado. Reparei que Elisa e as copeiras nos olhavam sensibilizadas, mas muito sem jeito. Após percorrermos tudo, sentei-me ao lado do carrinho. Segurei as mãos de Helena, acariciei seu rosto rindo satisfeita e falando sem parar, evidenciando o tamanho da minha felicidade. De fato estava feliz demais. Estávamos juntas, era dia de festa, nós nos amávamos, nos amaríamos sempre, que mais poderia querer, meu Deus?
Mauro chegou afobado, dizendo que descêssemos logo para ver a van chegar com a turma da escola. Estava quase na hora! Rafael correu na frente para segurar a porta do elevador. Chegamos na portaria bem a tempo. Naquele mesmo instante estacionava em frente ao portão um carro grande e bonito, mais bonito ainda porque lotado de crianças! Corremos para a calçada, Helena ria sua risada rouca, sem saber bem o que mais fazer para se expressar. Tia Sônia saltou primeiro e pulou sobre o carrinho para beijar Helena. Não conseguiu, pois por detrás dela saltaram quinze crianças barulhentas que rodearam o carrinho para felicitar Helena, empurrando a tia Sônia pra lá e a deixando esquecida entre Mauro e eu, que a custo procurávamos conter os ímpetos de felicidade mais abruptos. Por baixo daqueles rostinhos, entre pacotes e pacotinhos de presentes e presentinhos, a criança mais feliz do mundo ofegava e dizia com os olhos o que de outra forma lhe escaparia por cada poro de seu corpo inerte. Assim como Elisa e as copeiras, vi quando o motorista da van olhou para Helena emocionado, para logo depois entrar no carro e esconder-se de seu próprio medo.
Helena brilhou durante toda a festa, mimada e acarinhada por todos. O espaço no carrinho Helena dividia com amigos recém-chegados: bonecas e bichinhos de pelúcia novinhos em folha que, como Helena, não podiam se mexer, mas queriam participar. Na hora do parabéns, a pusemos no colo. Mas isto incomodou muito Helena, que sentia um desconforto imenso na posição vertical. Nas fotos ao redor do bolo não está registrado seu sorriso, apenas a expressão de uma indefinível angústia, que contrastava com a alegria de momentos atrás. Mesmo assim, firmemente apoiada no pai, lutando contra o incômodo, simulou apagar a velinha de seu último aniversário, ao som do mais estridente "parabéns a você!".
O esforço de apagar a velinha havia sido demais para Nena. Levei-a para casa, acomodei-a na cama do papai e da mamãe, onde preferia estar, e ali ficamos a nos olhar, minha mão afagando seu cabelo. Logo uma fila de crianças se formou na porta do quarto para as despedidas. Muito cansada, Helena não demorou para adormecer. Achei que talvez pudéssemos ir à escola na semana seguinte para a festa junina, para que Nena visse um pouco mais seus amigos e pudesse estar alguns minutos perto da fogueira, a linda fogueira de São João. Mas não foi possível. Já muito indisposta para qualquer tipo de movimento, preferia ficar o tempo todo na caminha. Então Rafael e eu improvisamos uma festa junina só para ela. Armados de tesoura e cola, com cartolina, papel de seda, lápis coloridos, arame e vela, montamos uma linda lanterna de São João para a Nena, que participou escolhendo as cores. Ao entardecer do dia de São João, apagamos as luzes da casa e entramos no quarto carregando a lanterna acesa e cantando as músicas juninas de que Helena mais gostava. O fogo da vela iluminou o quarto com suaves tons de verde, amarelo e vermelho. Na penumbra, empoleirados na cama e acolhidos pelo fogo, observávamos as cores trêmulas que formavam desenhos nas paredes. Assim encerrávamos, à nossa moda, as festividades do mês!
...
As dores de cabeça estavam aumentando muito. Na pior das noites, não houve jeito. Mauro passou a madrugada com Helena no colo, embalando-a e acarinhando sua cabeça. O tumor inflamava as regiões vizinhas a ponto de nenhum analgésico fazer mais efeito. Era preciso manter a Nena na vertical, o que a aliviava um pouquinho. Enquanto Mauro andava de lá para cá com Helena encaixada em seus braços, eu rezava O Pai Nosso, minha oração preferida. Sem piedade, a noite tornava mais escuro o negro do meu medo. Acelerei o alvorecer encadeando um Pai Nosso no outro até que finalmente Helena adormeceu.
Mauro e eu estávamos exaustos. Seis horas. Estava quase na hora de acordar Rafael e levá-lo à escola. Mauro colocou Nena na cama bem devagar e deitou-se ao seu lado, para acudi-la se necessário. Eu me pus a preparar o leitinho do Rafael e separar uniforme e material. Rafa chegou no horário às aulas. Sua rotina estava sendo preservada.
Quando cheguei de volta em casa, Nena, acordada, parecia melhor. Assim que o horário permitiu, ligamos para o consultório do Dr. Marco Antonio Stevan, neuro-cirurgião indicado pelo Dr. Edson. Atendimento de emergência, cirurgia de emergência. Era preciso enxertar uma válvula na cabeça da Nena que extraísse o excesso de água do cérebro, provocado pela inflamação. Através de tubo interno que desembocaria no aparelho digestivo, esta água seria eliminada. Nada complicado, e os resultados seriam imediatos. A dor cessaria completamente por um tempo. Por que será que o Dr. Olímpio não nos sugeriu esta válvula? Por quê?
Na porta da sala de cirurgia, cercados por amigos fiéis, Mauro e eu procurávamos relaxar enquanto aguardávamos. Sobressaltei-me ao ouvir o choro de Helena do lado de lá da porta. Estavam preparando sua ida para o quarto. Helena acordava da anestesia e estava muito assustada. Ao abrirem a porta, corremos para ela, seguramos suas mãozinhas enquanto caminhávamos rapidamente ao lado dos enfermeiros que empurravam a cama e seguravam soro e demais apetrechos dos quais não me recordo, tantos eram! Nossa presença demorou a provocar algum alívio em Helena, cujo choro não cedia. O lado direito de sua cabeça estava quase totalmente raspado. A válvula era mais visível do que imaginei. Minha angústia era imensa. Ao colocarem Helena na cama, já no quarto, senti-me muito mal. Tive que me deitar. Trouxeram-me algo para beber. Não podia olhar para minha filha. Eu estava tão cansada... Minha filha estava tão diferente... Tranquei-me no banheiro e chorei até me acalmar, enquanto Mauro, firme, não desgrudava de nossa menina.
Minutos depois, compreendemos por que Helena não sossegava. Não podia suportar a idéia de ter sua cabeça raspada. Com a mãozinha do braço direito, o único membro que ainda podia se mover, roçava o couro cabeludo de um lado a outro. O tato revelava que seu lindo cabelo louro já não estava lá. Faltava-lhe justamente o cachinho que mais gostava de enrolar nos dedos. Sorrimos aliviados. Explicamos direitinho que seu cabelo cresceria novamente. Em compensação, agora não haveria mais dor de cabeça.
Para lhe fazer companhia, trouxemos para o hospital um dos lindos bichinhos de pelúcia presenteados no aniversário: um ursinho falante. Era só apertá-lo em alguns pontos do corpinho, que ele gritava: "Ai, meu nariz!", no caso de ter sido o nariz o alvo do carinho mais afoito. A tensão do dia desfez-se de vez quando a enfermeira, ao vir tratá-la, sem querer puxou o ursinho pela orelha para afastá-lo. Qual não foi seu susto ao ouvir o ursinho gritar: "Ai, minha orelha!". Helena riu demais! Aquela risada rouca e dissonante foi o alimento de que minha alma tanto precisava naquele dia.
Helena dormiu muito bem toda a noite. O Dr. Marco Antonio veio vê-la. Foi uma bênção a presença do Dr. Marco em nossas vidas dali para a frente. Objetivo sem perder a sensibilidade, foi o único médico que nos acompanhou até o final. O Dr. Marco estava no quarto comigo e com a Nena quando Mauro chegou da rua, aonde teria ido a pretexto de resolver qualquer problema trivial. Chegou com a cabeça totalmente raspada!! Os olhos de Helena brilharam de alegria ao perceber o alcance daquele gesto do pai. Dr. Marco e eu, meio rindo e meio chorando, perdemos a noção do tempo observando aquela cena pouco comum: pai e filha juntos e carecas, debruçados num leito de hospital, entretidos tateando um na cabeça do outro os toquinhos pontiagudos de cabelo que despontavam com incrível velocidade!
...
Faz pouco mais de dois anos que Helena se foi. Faz alguns dias que soube do projeto de Mauro de fundar uma associação para ajudar crianças com câncer, transportando-as de avião para os centros de atendimento equipados de São Paulo. Li e gostei do estatuto, emocionei-me com o nome que Mauro escolheu para batizar a iniciativa, mas não senti alegria. Imaginei-me vice-presidente da associação, afetuosa, bem vestida, sempre com um sorriso nos lábios, abraçando crianças e arrecadando fundos, preferindo de fato imaginar-me de novo de tênis e abrigo, atrasada como sempre para levar as crianças para a escola, milhões de coisas por fazer em dias que se tornavam cada vez mais curtos, mas apaziguada no início da noite ao cobrir as crianças na penumbra do quarto tranqüilo, após a oração ao anjo da guarda. Apagada a luz, agradeceria, sempre, por tê-las comigo.
Difícil digerir a idéia de ver o nome de minha filha transformado em nome de associação. Um nome que não mais traduzirá seu rosto lindo, mas será conhecido por tantos quanto o ouvirem, daqui para frente, como um grito de socorro. Com o texto do estatuto em uma das mãos e uma xícara de café na outra, sentada no banquinho da cozinha, naquele canto escondido em que todos os dias de manhã, solitária, completo a oração que logo cedo, na cama, o despertador me impede de concluir, vislumbro num horizonte lindo, num amanhecer como poucos, a figura de minha filha crescendo, crescendo. Eu, pequena, sinto desvestir-me definitivamente do papel de mãe de Helena. Me escondo então desse horizonte em que habita a esperança, fujo desse céu avermelhado em que o futuro insiste em se tornar presente, e me aninho mais e mais no meu canto, onde a única luz vem daquele rosto claro e jovem, santificado na minha dor, que minha memória se esforçará por guardar ...
DIÁRIO - Parte 2
1/2/97 - constatação do estrabismo; estado geral da Nena é bom
4/2 - consulta com oftalmologista
6 - primeira ressonância magnética; constatação do tumor no tronco-cerebral
7 - consulta com neurologista (expectativa de vida: 18 meses... sumiu o chão sob nossos pés, cirurgia descartada, indicação para radioterapia)
8 - consulta com oncopediatra (Vamos lutar! - começamos a construir algum chão)
8 - início do Decadron - corticóide - 12mg/dia (muita coisa!)
8 a 18 - planejamento da radioterapia com o médico especialista; estado geral da Nena alterado pela alta dosagem de Decadron
19 - início do tamoxifeno
20 - início da radioterapia
20/2 a 9/4 - baixa gradativa da dose de Decadron (melhora do estado geral!), chegando a 1mg/dia ao final da radioterapia; estado geral bom, Nena vai à escola!; um pouco de tontura (será o tamoxifeno?); pequenas dificuldades motoras; come bem, brinca e dorme bem; alteração de pressão devido ao Decadron - controlar com a alimentação: comida sem sal, e com diurético
9/4 - término da radioterapia; a Nena está muito bem!
9 a 19 - bom estado geral, pressão boa, um pouco de dificuldade para andar...
20 - dificuldade na fala, um pouco de dor de cabeça
21 - Decadron sobe para 3mg/dia
22 - ressonância
23/4 a 1/5 - piora dos sintomas - fala mais difícil, mais dificuldade de locomoção, vômitos, aumenta a dificuldade para deglutir ... Decadron sobe para 4mg/dia
2 - terrível engasgo com salsicha (Nena quis muito comer cachorro-quente na saída da consulta no Instituto da Criança) - atendimento de emergência, grande risco, grande aflição! Antibióticos
3 a 15 - dificuldades motoras grandes, imobilização dos membros esquerdos, aumenta dificuldade para alimentar-se, mais vômitos, descontrole do cocô, Decadron passa para 6mg/dia (sinto que os esforços de ter ido ao sítio, ter ido ao zoológico, ter lutado contra a salsicha que quase a sufocou, ter ficado horas no hospital em observação, mais outras tantas horas para colher urina ... debilitaram muito Helena)... Muitos efeitos colaterais: catarro, sapinho, retenção de urina
16 - estado geral estável, com as mesmas dificuldades, globo ocular vermelho, soluço, dentes rangem. Dificuldade para colher fezes e urina para os exames. Alimentação agora só bem pastosa. Helena está muita avessa a hospital, médicos, remédios, injeção. Seu humor varia muito. Às vezes sente irritação, está se cansando...
17 - hoje faz cinco dias que Helena não evacua. Tentativa de reintroduzir o Viscum subcutâneo, a pressão andava alta. O engasgo foi traumático, piora desde então. Dificuldades para medicar, Nena não quer os remédios. Suspendi a tintura fogo para diminuir a irritação (dava para reforçar a vontade)
18 - come melhor! Estável! Parece que começa a melhorar
19 - idem
20 - consulta no Instituto da Criança - retorno só em 3 meses!! Falta fazer cocô
21 - melhora coincide com introdução do novo floral, e com as orações, e com a cura prânica, e com a acupuntura!
22 a 26 - boa melhora: não vomitou, mais movimentação na perna esquerda, come bem! (consistência pastosa)
27 - ressonância com espectroscopia (passou mal depois do exame)
28 - consulta com o radioterapeuta - esperança!!
29 - fez cocô, ainda vomita, quadro geral controlado, mais sono
30 e 31 - muito sono, vômito
31 e 1/6 - mais vômito, piora geral, dor na nuca, a fala está mais difícil (será cansaço?)
1 e 2/6 - melhora boa com Zofran, olhinho direito muito vermelho
3 e 4 - estado geral melhora; olho melhor; come bem!
5 a 9 - idem
10 - consulta com oncopediatra. Más notícias. Suspende tamoxifeno.
10 a 14 - piora; resfriado; vômitos; parece mais incomodada
12 - conseguiu aproveitar sua festa de aniversário!
14 - não posso deixar de ver o desânimo da Nena; mas sempre sorri para mim...
15 e 16 - o ânimo melhora, vomitou
16 a 20 - estável, mas acorda mais à noite
21/22/23 - é dor. Decadron passa a 8mg. Parece pior
24 - piora, fala mais difícil, menos sustentação do corpinho
25 - melhora! Reclamou só uma vez de dor leve. Depois recuperou e manteve o ânimo e o bom humor
26 - assusta-se muito fácil!
27 - está bem melhor!
28 a 4/7 - mais dor de cabeça. Mais uma ressonância. Estamos aguardando...
5 - cirurgia da válvula... grande médico...
6 a 11 - recuperando-se. Não tem dor!! Ligeira piora dos sintomas (movimentos), mas a fala está igual. Aos poucos, ganha confiança, mantém o humor
12 a 16 - recupera-se ainda da cirurgia
17 e 18 - sessões de quimioterapia. Vamos ver... Dor de cabeça no dia 18, durante a aplicação. Está tão molinha, deve ser a medicação!!
19 - muito soninho.... Nena não quer acordar! Hospital...
20/7/97 - ..........................
PRÓXIMA HISTÓRIA* - Parte 3
Helena, a mamãe vai te levar a um lugar muito bonito, através da nossa imaginação... Esqueça esses tubos incômodos que te ligam a um tipo de vida que não interessa mais. Ouça esta música que gravei pra você. É com ela que poderemos chegar ainda mais rápido a esse lugar de que lhe falo, esse lindo lugar.
Que bom que seus olhinhos já estão fechados, pois assim será mais fácil concentrar-se. Agora a música nos embala e nos leva para o mundo das cores, a porta de entrada para o nosso lugar. Mas veja, não são cores comuns, elas têm vida, existem por si, em forma de luzes muito brilhantes e intensas.
Helena, veja só, cada cor que vai aparecendo penetra em nossos corpos ... Nos traz paz, uma espécie nova de alegria, tão suave, e tranqüilidade, tanta tranqüilidade ... ao mesmo tempo nos sentimos tão cheias de energia, não é mesmo? Estamos cada vez mais fortes e bonitas.
Agora, meu amor, através das cores, que aos poucos se desfazem e penetram em tudo o que as cerca, tal qual a neblina da manhã, já podemos vislumbrar o lugar maravilhoso de que estou falando. Veja!! Que lindo lugar! E olhe só para nós! Estamos vestidas de branco, a brisa esvoaça nossas saias, os pés descalços pisam firme em texturas macias, nosso chão é um chão de grama morna e verde sem pontas. Vamos correr? Me dê sua mão, vamos, vamos, tem muito gramado pela frente, venha, filhota!! Ufa! Que delícia! E a brisa que sopra em nossos rostos nos eleva à altura dos pássaros, que cantam tão perto... Confundo nossas vozes com o canto dos pássaros, tão próximos estão de nós, acompanhando nossa brincadeira...Vamos deitar na grama? É tão macia... Isso. Vem do meu lado. Abra bem seus bracinhos, filha, e afaste as pernas. Agora somos duas estrelas fitando o céu infinito. Duas estrelinhas neste imenso gramado. Sinta o verde vivo que penetra nossos corpos. Não estranhe, filha, é do fundo da terra que vem esse calor, deixe que entre em você, enquanto olhamos para o céu... tão azul, não é? Muito azul... Algumas poucas nuvenzinhas brancas passeando como as ovelhas das velhas histórias de pastores, lembra-se? ...
Que tal nos levantarmos agora? Vamos continuar a passear? Agora sem correr. Vamos andar bem devagarinho e respirar fundo... Sentiu o perfume? De que será? Sim, claro, vem das flores, olhe lá, estamos nos aproximando de muitas, muitas flores! Deus meu! Não acabam nunca! Vamos colher algumas? Mal posso escolher de que cor, são tantas cores: amarelo, cor-de-rosa, violeta, vermelho, branco, laranja... Ei, há uma cesta bem atrás de você! Vamos lá, vamos encher a cesta de flores. Primeiro as amarelas, que tal? Espere, estas flores são mágicas. Você está ficando dourada, filha! Como você brilha! Como pode brilhar tanto assim? Como consegue brilhar mais do que sempre brilhou?
.... Agora as azuis. Mas por qual tom de azul começar? Há todos os tons por aqui. Pare de rir, Helena, estou confusa mesmo, nunca vi tantas flores juntas, tantas cores em forma de flores ou flores que trazem cores, não sei mais... Está bem, é difícil não rir da mamãe assim estabanada. Agora pare de rir e me abrace, querida, me abrace, assim, assim, este é o nosso paraíso, ninguém a perturbará aqui, ninguém.
Nena, você está vendo lá no horizonte? Bem longe? Alguém vem chegando! E se aproxima rapidamente! É um homem bonito e forte, veja, e carrega um escudo prateado e de sua espada reluzem raios azuis! Parece um homem bom, muito bom... Vamos nos ajoelhar, ele está erguendo sua espada sobre sua cabeça, filha!, e vai dizer alguma coisa: "Helena, linda menina, forte e corajosa, vim lhe trazer os raios azuis de minha espada. Estes raios penetram no seu corpo e o libertam de todo o mal. Não há mais dor, só liberdade. As flores que colheu formarão o mais lindo buquê e a mais nobre coroa. Use-os para seguir o seu caminho."...
Helena, pronto, não fique assustada, o homem se foi, diluiu-se aos poucos em meio às flores... E olhe só! Na sua cabeça! É linda sua coroa! E no chão, logo ali, o buquê! Pegue-o . Está feliz? Vejo que sim. Pena que agora o papai não pode vê-la para apreciar mais uma vez sua beleza incomum. Bem, creio que entenderá. Afinal não podia vê-la quando você morou dentro de minha barriga, não é verdade? E amou-a da mesma forma.
Nena, faltou colher flores brancas. Segure o cesto enquanto colho algumas brancas. Isto. Mais algumas e ... está bom assim. Não está? Helena? Onde você está? Faltam estas flores, as brancas... Helena! Você está aí? Estas flores brancas são ainda mais mágicas que as amarelas! Você está translúcida como o amanhecer depois de uma madrugada orvalhada! Quase não posso reconhecê-la! Querida filha, mal posso olhá-la tamanha a intensidade dessa luz branca que vem de você. Posso apenas entrever seu sorriso, seu sorriso de menina feliz que ganhou boneca nova...
É verdade. Deve estar na hora. Não sabia que me sentiria assim tão leve neste momento, parece que flutuo junto com você, junto com a luz branca que vem de todos os lugares! Luz que ofusca e separa. Já não posso mais vê-la, mas sei que você está aí, posso sentir seu olhar; não ouço a voz, mas seu cheiro está em toda parte... A brisa que continua a esvoaçar meu vestido é você me puxando para brincar. Logo mais, Helena, logo mais; por enquanto, até breve, minha filha querida. E não deixe cair a coroa, nem perca o seu lindo buquê!
(*) Esta história foi contada por mim à minha filha, na UTI do hospital, minutos antes de nossa despedida...
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